Canal da Morte: o depósito de cadáveres que reflete a violência no Equador
Quando alguém desaparece, suas famílias geralmente procuram hospitais, o necrotério e a polícia. Mas em um distrito do Equador assolado pela violência do crime, a busca habitual acontece no Canal da Morte, onde dezenas de corpos foram encontrados.
Georgina Bermeo estava deitada de bruços, com as roupas sujas e cercada por ervas daninhas, quando seus familiares encontraram seu corpo em maio neste depósito de cadáveres a céu aberto no noroeste de Guayaquil.
O canal, com mais de 45 quilômetros de extensão, atravessa Nueva Prosperina, considerado o distrito mais violento do principal porto comercial do Equador. Foi concebido há mais de uma década para irrigação agrícola, mas moradores dizem que, após a pandemia, ficou repleto de corpos e água contaminada.
Uma estrada de terra margeia o canal, em meio a lixo, cães magros e urubus. Não há iluminação pública nem câmeras de segurança. Homens armados em motocicletas controlam o acesso, segundo os moradores.
Bermeo, de 38 anos, e seu marido, José Cedeño, de 43, foram assaltados e depois baleados. O corpo do homem também foi jogado no canal.
"Nosso único pecado é sermos negros", disse a irmã da mulher à AFP por telefone, sob anonimato por medo de grupos criminosos. Em 2025, o Equador registrou uma média de um homicídio por hora, segundo dados oficiais.
A mulher decidiu não denunciar os crimes porque, segundo ela, "a polícia está nas mãos dos criminosos".
- "A morte nos visita" -
"Vivemos com medo, com as portas trancadas, e não há como abri-las porque a morte nos visita", disse Juan Ordóñez, um líder comunitário que mora ali há 40 anos e que viu corpos amontoados nas comportas no final do canal.
Desde 2023, a polícia forense removeu mais de 100 corpos do canal, alguns dentro de sacos ou nus. Em novembro, encontrou uma vala com nove cabeças, braços e torsos.
"É um lugar para jogar corpos. Eles os executam ali ou mais acima, e são levados pela correnteza", diz o tenente Christian Echeverría, da unidade policial que investiga mortes violentas.
O policial perdeu a conta dos corpos recolhidos no local durante os três anos em que trabalhou em Guayaquil, um porto estratégico usado por organizações criminosas para traficar cocaína para os Estados Unidos e a Europa.
Em seu relatório de março sobre o Equador, o Comitê das Nações Unidas para o Combate aos Desaparecimentos Forçados (CED) relatou ter recebido denúncias de pelo menos 51 casos de desaparecimentos supostamente perpetrados por agentes do Estado desde 2024.
As denúncias de abusos policiais e militares aumentaram sob a estratégia contra o crime organizado do presidente Daniel Noboa, apoiada pelos Estados Unidos.
No poder desde 2023, Noboa governa sob um estado de exceção quase permanente. Mas a criminalidade persiste no país e nesta cidade de quase três milhões de habitantes, onde, segundo dados oficiais, ocorreram mais de 900 homicídios entre janeiro e maio.
N.Schuster--BVZ