Para o indicado ao Oscar Stellan Skarsgard, cinema de qualidade é como uma boa refeição
Stellan Skarsgard surfa uma temporada de premiações triunfal graças ao seu recente "Valor Sentimental", o aclamado filme norueguês que lhe rendeu sua primeira indicação ao Oscar como ator coadjuvante.
O sucesso do filme, que concorre em nove categorias do Oscar, não o pegou de surpresa, e o ator sueco o atribui, em parte, à sua permanência nas salas de cinema.
"'Valor Sentimental' teve uma longa vida nas salas de cinema, e cresce, cresce e cresce. Cresce pelo boca a boca das pessoas que o veem e gostam", disse Skarsgard, de 74 anos, à AFP.
"Não cresce porque as agências de publicidade dizem que é preciso vê-lo. E é assim que eu gosto que seja", acrescentou o prolífico ator, com mais de 150 filmes em seus quase seis décadas de carreira.
O ator sustenta que o cinema é o meio natural dos filmes e que, assim como a boa gastronomia, eles devem ser saboreados com calma.
"Na culinária, há algo chamado comida lenta, que é muito bom", disse Skarsgard, referindo-se ao movimento que surgiu na Europa em 1989 em resposta ao fast food.
"Que tal uma distribuição lenta dos filmes para deixar que cresçam de forma natural porque as pessoas gostam deles?", questionou.
Sob a direção de Joachim Trier ("A Pior Pessoa do Mundo"), Skarsgard interpreta Gustav Borg em "Valor Sentimental", um cineasta renomado que tem uma relação tensa com sua filha atriz, interpretada pela também indicada Renate Reinsve.
Pai de oito filhos, seis dos quais seguiram seus passos nas telas, Skarsgard já brincou sobre como sua própria vida real o ajudou na preparação para o papel pelo qual já ganhou um Globo de Ouro, entre outros reconhecimentos.
Mas ele aproveita a atenção que recebe para enfatizar o futuro da indústria.
– "Otimista" –
A batalha entre as salas de cinema e o streaming vai além de uma preferência de consumo, opina Skarsgard.
"Tudo está se tornando a mesma coisa em todo o mundo. Somos propriedade das mesmas pessoas, e isso é uma ameaça à diversidade de qualquer tipo de arte", disse.
"As salas de cinema morrem se tivermos apenas streaming."
Apesar desse cenário, o ator se define como "otimista" graças ao sucesso de "Valor Sentimental", que também atribui à globalização do cinema.
"Este filme é um bom exemplo do que você pode fazer com o cinema. Claro que não pode ser apreciado no iPad, mas o que é importante é romper com essa tendência de unificar o capital, de que o capital se acumule nas mesmas mãos", comentou.
Para o ator, os filmes são uma "matéria-prima cultural que beneficia a sociedade".
Sorridente, afável e ponderado ao falar, Skarsgard conversou com a AFP durante o tradicional almoço que a Academia de Artes e Ciências Cinematográficas oferece aos indicados ao Oscar todos os anos, e que desta vez foi realizado em 10 de fevereiro, em Beverly Hills.
O ator não escondeu seu entusiasmo por participar do evento ao lado de colegas e outros profissionais do cinema, "alguns dos melhores do mundo".
Skarsgard também refletiu sobre como o mercado internacional ganhou peso pouco a pouco diante do americano, uma mudança que ele observou ao longo das quase seis décadas de carreira que começou em sua terra natal, a Suécia.
E isso se torna evidente nas atuais indicações ao Oscar, com dois filmes em língua estrangeira ("Valor Sentimental" e o brasileiro "O Agente Secreto", de Kleber Mendonça Filho) saindo da categoria internacional para competir pela tão cobiçada estatueta de melhor filme, prêmio tradicionalmente concedido a produções americanas.
Para o futuro, o que o também produtor espera é que os filmes retornem ao seu habitat natural.
"Quero ver os filmes de volta às salas de cinema", disse. "E quero que as pessoas voltem às salas de cinema".
A 98ª cerimônia do Oscar será realizada em 15 de março, em Hollywood.
P.Jahn--BVZ